O Mito do Risco na prática do Parkour

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O Mito do Risco na prática do Parkour

A coluna quinzenal Figueira em Movimento dedica-se àquilo que diz respeito à saúde e ao desporto que envolve a cidade da Figueira da Foz, em particular, à forma como as pessoas que nela vivem ou por ela passam se apropriam e/ou se poderão apropriar do seu espaço.

A prática de Parkour tem vindo a ser associada à ideia de risco, de lesões graves e de morte. Ao nível de uma perspetiva centrada no senso comum, ou seja, naquilo que percecionamos, revela-se compreensível a origem deste preconceito. O que proponho prende-se com desprendermo-nos do senso comum e partirmos para um conhecimento profundo acerca do risco inerente a esta prática.
O risco associado à atividade física em geral é inegável. Também não se pode negar que determinadas formas de praticar exercício físico facilitam o aumento do risco em detrimento de outras. Por outras palavras, não se trata da atividade em si, mas sim a forma como a praticamos.
Na prática de Parkour, o elevado risco percecionado advém da forma como o conteúdo digital nos é apresentado, particularmente o conteúdo que se torna viral. Não se pode negar que para a generalidade das pessoas revela-se mais interessante visualizar um salto considerado perigoso no cimo de um prédio do que uma série de movimentos simples realizados ao nível do solo. Em larga medida, a ideia que as pessoas carregam consigo acerca da prática de Parkour tem que ver com a realização frequente de saltos com maior risco. Esta ideia apresenta-se muito distante da realidade. Os traceurs e as traceusses (praticantes de Parkour; sexo masculino e feminino, respetivamente) investem a esmagadora maioria do seu tempo de treino e dos seus anos iniciais de prática a procurar dominar os movimentos do Parkour ao nível do solo ou, no limite, em alturas próximas da sua estatura física.
O risco na prática de Parkour que observamos no universo digital revela-se bipartido: por um lado, temos o risco que é tido em conta por um(a) praticante após vários anos de treino e após aplicar uma série de estratégias para minimizar o perigo e aumentar a segurança, e, por outro lado, temos o risco que não é tido em conta e que culmina em cenários altamente perigosos. De forma independente a estas ideias a lesão inerente ao risco pode suceder. A questão é que sucederá de forma frequente ao praticante que não leva o perigo em conta e que não procura minimizar o mesmo.
Em contrapartida, o praticante que procura mitigar o perigo e aumentar a segurança corre um risco reduzido em termos de lesão ou outro cenário gravoso. Para tal, os traceurs e as traceusses empregam uma série de estratégias para minimizar o risco e incrementar a segurança durante a prática de Parkour.

Em primeiro lugar, importa notar que os praticantes de Parkour realizam uma medição individual dos saltos através dos seus pés, ou seja, os praticantes contam o número de pés que vão desde um ponto ao outro do salto que desejam realizar. Em antemão, os praticantes já conhecem o limite, em número de pés, que saltam, sendo, assim, capazes de discernir se dado salto se apresenta exequível ou não. A título de exemplo, uma traceusse que encontra um salto de 8 pés e que salta 10 pés, à partida estará perante um salto fácil de concretizar.

Em segundo lugar, note-se ainda que os praticantes de Parkour apalpam o terreno à sua volta. Por outras palavras, os praticantes literalmente averiguam as diferentes texturas dos muros, procurando perceber que tipo de aderência terão à superfície (um extremo de aderência, para um nível elevado ou reduzido, pode levar a uma queda, tendo de ser empregues técnicas distintas em cenários situados nestes extremos) e procuram aferir se as estruturas se apresentam estáveis e seguras (barras, muros e outras superfícies em mau estado levam o praticante a desistir de realizar o salto de forma a evitar uma possível queda).

Por último, os praticantes de Parkour aplicam uma série de estratégias, que não se esgotam nas indicadas, para mitigar o risco e incrementar a segurança:

Aquecimento, fortalecimento muscular e treino de flexibilidade: a investigação na área do exercício físico reforça este ponto, na medida em que a realização de exercícios de aquecimento (como uma corrida ou caminhada ligeira, alongamentos dinâmicos, entre outros), um treino frequente dos diferentes grupos musculares do corpo (por exemplo, a realização de agachamentos, flexões e elevações) e um treino regular de flexibilidade (a título exemplificativo, a realização de alongamentos estáticos) permitem minimizar o risco de lesão e preparar o corpo para responder de forma otimizada a esforços físicos vigorosos;

Progressão gradual: esta estratégia utilizada de forma pedagógica em todo o tipo de aprendizagem desportiva é aplicada na prática de Parkour por via de uma série de fases, onde inicialmente dado movimento é executado no solo ou em colchões, sem muros ou com muros muito baixos, sendo posteriormente introduzido em muros cujas alturas vão incrementando gradualmente à medida que o praticante executa o movimento de forma fluída e tecnicamente correta. Por fim, após um treino regular do movimento ao nível do solo, em alturas baixas e gradualmente em superfícies mais duras (colchões, areia, relva e cimento), o mesmo pode ser levado para alturas superiores (de forma gradual também) ou para superfícies mais complexas (como é o caso das barras);

Testar em segurança: na prática de Parkour procura-se pensar de que forma se pode gradualmente procurar alcançar o topo de um muro ao realizar um salto ou de que formas nos podemos proteger caso não seja possível numa primeira tentativa alcançar a parte superior de um muro. Nestes cenários, os praticantes agarram-se a três técnicas: o cat com ressalto (onde o praticante chega à parede com os pés e com as mãos num movimento em que toca na parede e ressalta ligeiramente para trás e para baixo, aterrando em segurança com quatro ou dois apoios no chão ou executando um rolamento ou roll para mitigar o impacto), o gancho ou crane (um movimento em que o praticnate alcança a parede com um pé em cima do muro e outro em baixo, procurando estabilizar-se com o apoio das mãos na parte superior do muro) e na aterragem com ressalto (onde o praticante, à semelhança do cat com ressalto, procura tocar na parte superior do muro com os dois pés, aterrando com a parte central destes, e realizar um ressalto para o chão, onde aterra com quatro ou dois apoios ou executa um rolamento);

Treinar cenários de queda: o treino de cenários de queda é realizado em diversos formatos, tipicamente, em superfícies como colchões, areia ou relva, onde ao nível do solo ou num muro muito pequeno se procurar intencionalmente cair para analisarmos a forma como naturalmente reagimos ao cenário de queda com o objetivo de retreinar o corpo e a mente para gerir de uma forma mais acertada um salto que culmine numa queda. A título de exemplo, os praticantes frequentemente treinam cenários de queda relacionados com saltos precisão (salto parado, isto é, sem corrida, de um ponto para o outro), onde o traceur ou a traceusse a partir de uma altura próxima do seu tornozelo procuram saltar o seu limite para forçar uma queda. O objetivo para este cenário é cair sem tocar com as mãos no chão, para evitar lesões nos pulsos e estruturas circundantes, tocando antes com a parte posterior dos pés (pois é uma estrutura mais resistente), seguido dos glúteos (que devido ao seu enquadramento muscular permitem auxiliar a dissipar o impacto sem lesão) e terminando num rolamento suave para trás em forma de pêndulo para dissipar o impacto.

A mensagem que se procura passar prende-se com o exacerbamento do risco que a opinião pública concede à prática de Parkour e não com a inexistência deste, assim como se procura disseminar que os traceurs e as traceusses são conscientes dos riscos inerentes à sua prática e que procuram minimizá-lo através de técnicas particulares, rompendo-se, assim, com a ideia da irresponsabilidade e da falta de consciência que se associa aos praticantes desta atividade.

Em jeito conclusivo, quedas que terminam em mortes nunca foram registadas para praticantes de Parkour inseridos em comunidades reconhecidas por grupos locais e/ou globais (apenas para pessoas que mimicavam os movimentos do Parkour sem seguirem a disciplina), quedas que impliquem lesões incapacitantes a nível físico ou mental foram registadas em praticantes cuja profissão se centrava no trabalho enquanto duplos e enquanto criadores de conteúdo digital (estas pessoas correm, sem dúvida, um risco maior, dado que o seu trabalho implica alavancar a atividade para caminhos novos em termos dos seus movimentos e possibilidades), quedas graves que impliquem fraturas ou lesões que incapacitem temporariamente acontecem com muito pouca frequência (uma vez ao longo de anos de treino), quedas ligeiras que impliquem arranhões e outras lesões do tipo acontecem esporadicamente ao longo de um ano de treino regular.
Em larga medida, um praticante que segue a disciplina do Parkour e que procura utilizar esta atividade como o seu trabalho corre um risco elevado (podemos equiparar a um trabalho de risco, como o realizado nas reparações de equipamentos eólicos, por exemplo), um praticante que procura evoluir no interior da atividade ao longo dos anos como forma de treino físico e mental corre um risco médio-baixo (equiparado, por exemplo, a alguém que pratique musculação em contexto de ginásio de forma consistente ao longo de décadas) e um praticante que procura concretizar uma atividade em contexto de aula ou acompanhado por praticantes experientes corre um risco baixo (equiparado, a título exemplificativo, para as crianças, a brincar livremente num parque infantil e, para os adultos, a realizar um treino de corrida ou de ciclismo moderado em termos de intensidade).
Para participarem nas sessões de Parkour na Figueira da Foz consultem o website da Naval Remo em https://navalremo.pt/site/o-que-e-necessario-para-praticar-parkour/.

(…)
Professor de Parkour associado à Naval Remo (Figueira da Foz)
Miguel Correia, licenciado em Ciências da Educação e mestre em Educação para a Saúde, dedica-se à investigação científica na área das ciências da educação, onde aprofunda tópicos relacionados com a saúde e a cidadania. A par do seu trabalho enquanto educólogo (especialista em educação) é também professor certificado de Parkour na Naval Remo (Figueira da Foz), tendo dedicado os últimos 12 anos à prática desta atividade. Ao longo destes anos fez parte da história do Parkour em Portugal e no mundo (inauguração de Parkour Parques e de Escolas de Parkour, entre outros eventos).

Sobre o autor

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